| |
G1) Revista Carta Capital – SP,
31/05/2006, Plural, 52 e 53
O CD desce a ladeira
Pedro Alexandre Sanches
Já vai tarde o tempo em que executivos de grandes gravadoras
declaravam em alto e bom som que era impossível reduzir o
preço de seus produtos – isso mataria a indústria
fonográfica e a própria música, chegavam a
ameaçar. Hoje, nas gôndolas das lojas, já é
fácil encontrar novidades de Marcelo D2 ou Sandy e Junior
por 25 reais, ou um álbum duplo novinho em folha dos Red
Hot Chili Peppers por 48 reais (até outro dia, esse seria
o preço de praxe de um CD internacional simples).
Lehart edita disco sozinho e Paulinho segue adiante apoiado nos
shows A tendência é importada do Primeiro Mundo, em
que as reduções de preços se mostram ainda
mais impressionantes: favoritos de mídia como Morrissey e
o grupo Arctic Monkeys já chegam às lojas por 9,99
dólares, no dia do lançamento. O presidente da multinacional
Universal Music, José Antonio Eboli, admite com algum constrangimento
a mudança geral de discurso: "Tudo é uma questão
de adaptação. O mercado é que fala mais alto".
Parece boa notícia, mas não é tão simples
assim: a desvalorização do CD toma ares de canto de
cisne. "O CD não morre tão cedo", afirma
Gustavo Horta, presidente da Som Livre (a gravadora da Rede Globo),
que logo em seguida afirma: "Se não controlar, a tendência
é acabar mesmo". Até o DVD, tido como "salvador"
da indústria musical em 2004, já é largamente
pirateado e ostenta reduções de preço ainda
mais velozes que as do CD. A versão especial de Sandy e Junior
com CD mais DVD, por exemplo, já chegou aos grandes magazines
com etiquetas do tipo "de R$ 49 por R$ 39". "O drama
da gente é que, da classe A para a E, temos a pirataria digital,
e da E para a A, a pirataria física. Estamos espremidos entre
essas duas pontas", define o presidente da Som Livre. Números
recém-divulgados pela Associação Brasileira
dos Produtores de Discos (ABPD) atestam essa avaliação.
O faturamento do mercado fonográfico brasileiro encolheu
12,9% em 2005. No mundo como um todo, a queda foi de 3%. Contradição
difícil de compreender esconde-se atrás da diferença
de queda de arrecadação (12,9%) e de cópias
vendidas (20%), o que parece indicar que na temporada 2005 o desinteresse
dos consumidores pelo CD possa ter sido "compensado" por
preços mais elevados. A ABPD afirma que não e cita
que o preço médio de um CD em loja, em 2005, foi de
módicos 9,96 reais. A avalanche de coletâneas "baratas",
tanto em preço como em qualidade, ajuda a entender a média
tão baixa, mas confunde o raciocínio de quem vá
à loja adquirir os novos CDs de Marisa Monte e Chico Buarque
e não os encontre por menos que 37 reais. "Marisa Monte
não é ‘pirateável’, Chico Buarque
também não. Eles têm um consumidor de nível
educacional maior, que sabe que comprar pirata prejudica o artista",
ajuda a explicar Horta, da Som Livre. Trocando em miúdos:
o consumidor que ajuda a combater a pirataria leva como "prêmio"
um acréscimo de preço, enquanto sucessos de pirataria
como Chitãozinho & Xororó e Pearl Jam saem por
27 reais na venda "oficial". Para complicar ainda mais,
os critérios que apartam "classe A" e "classe
E", ou "popular" e "sofisticado", ficam
insuficientes para explicar certos resultados, como demonstra Eboli:
"Entre as duas versões de Sandy e Junior, é a
mais cara que está vendendo mais". Essa edição
de formatos alternativos mais chamativos (e caros) é o que
se costuma chamar de "valor agregado", e é aí
mesmo que reside a crítica do dissidente João Marcello
Bôscoli, da Trama.
Marisa. Sem pirataria, os fãs pagam mais caro
"Em vez de encontrar alternativas para ficar mais criativa,
a indústria foi cortando despesas com capa, encarte etc.
Seria como se a Disney economizasse nas cores dos desenhos animados",
diz Bôscoli. Eboli menciona o comportamento de repulsa crescente
do consumidor pelo formato CD: "A percepção do
consumidor é de que o CD é um produto caro. Mas por
30 segundos de música em truetone de celular ele paga 4 reais,
não dá para explicar". Bôscoli arrisca
uma explicação: "Meus amigos que fazem hip-hop
pagam 40 reais num boné, mas não num CD. O CD foi
tão mal administrado pela grande indústria que foi
perdendo valor, foi se desmoralizando. A lição que
o pirata trouxe é de que música tem que ser como água,
tem que estar em todo lugar, o preço pode ser menor. O pirata
jogou esse vetor para baixo". Se o CD só faz perder
valor, a indústria busca estratégias alternativas
de gerar receitas – até mesmo aquelas mais duvidosas.
Uma é bater de frente com o avanço da circulação
virtual de música, que na estatística global já
gera de 7% a 8% da receita das gravadoras (no Brasil, a conta ainda
nem é feita). Uma das táticas é a da EMI, que
a partir do lançamento duplo de Marisa Monte instalou um
dispositivo anticópias que impede seu consumidor até
mesmo de copiar em seu próprio computador o disco que comprou.
"A proteção anticópia, na minha visão,
é inconstitucional", protesta Bôscoli. "E,
pior, ela não adianta nada. Qualquer moleque que tenha entrado
duas vezes no computador sabe como contornar. Isso desgasta o artista,
o moleque pensa: ‘Pô, o cara tem grana, precisa disso?’"
Outra "inovação" polêmica que a indústria
tenta emplacar para estancar a sangria de receitas é a de
se tornar "parceira" nos lucros que o artista tem com
shows. "A cláusula de direitos pelos shows vale para
artistas novos, com os consagrados não temos nem como discutir.
Mas ela não é exercida em 99% dos casos, porque são
artistas que ainda nem fazem muitos shows. Existe taticamente, para
o futuro", defende Eboli. Em qualquer caso, é evidente
a retração geral, como descreve o presidente da Som
Livre: "O aperto é enorme, de 250 funcionários,
estamos com 90. De três prédios, passamos para um.
Tudo isso acaba tirando dinheiro do bolso de todo mundo, inclusive
do artista". Chega-se aqui, enfim, à ponta dos artistas
que se fizeram dentro da grande indústria. Até há
artistas que há tempos já não se ancoram no
CD, como é o caso de Paulinho da Viola, que não lança
um disco inédito desde 1997. Diz João Bosco Rabello,
assessor do artista: "Paulinho tem sua receita em direitos
autorais e de shows que nunca deixou de fazer mensalmente, país
afora. Como ele diz, ainda tem que trabalhar bastante, aos 60 e
poucos anos". Caso-exemplo dos novos tempos é o do músico
Leandro Lehart, que nos anos 90 foi o maior arrecadador brasileiro
de direitos autorais, por conta da explosão de seu grupo
Art Popular e de toda uma nova geração do samba (ou
do "pagode mauricinho", segundo rotularam os detratores).
Leandro hoje tem gravadora própria, a Against All Music,
pela qual acaba de lançar o inspirado álbum-solo Deixe
Eu Ir à Luta, que procura equacionar sofisticação
musical que não exibia no Art Popular e o apelo popular que
não quer deixar de portar. "Comecei a perceber que não
preciso ficar falando de amor o tempo inteiro, como o rádio
exige, quando a minha realidade não é assim. O rap
é irmão de sangue do samba, muito mais do que se imagina",
diz, falando da linguagem musical e do discurso social hoje presentes
em sua obra ao lado das baladas de amor. "Este é o primeiro
disco em que estou arregaçando as mangas, fazendo por mim
mesmo o que a gravadora fazia. O investimento é complicado.
Se comparar o que gasto hoje e o que a gravadora colocava de dinheiro
em rádio, não consigo entender, a conta não
fecha. Em São Paulo custa o dobro do que para o resto do
País", afirma, roçando no tema espinhoso do jabaculê.
Sem valor.
Para Eboli, o consumidor paga R$ 4 por um trecho de música
no celular, mas rejeita o CD Lehart reavalia sua trajetória
junto à grande indústria: "A EMI fazia contratos
milionários com artistas de MPB, e tirava o dinheiro para
isso dos grupos de samba. Nós pagamos o contrato de muita
gente. Aí, quando o Art Popular passou a não vender
tanto mais, não interessava mais a eles, tchau". Ele
admite que é mais penoso ser ao mesmo tempo artista e empresário,
mas diz encontrar soluções tanto na periferia como
no centro, ou melhor, em improváveis fusões entre
os dois pólos. "Canto no Recife e em Belém para
6 mil pessoas, com ingressos a 5 reais, e ali sou tratado como um
deus. É melhor que fazer uma temporadinha para dizer que
estou por cima da carne-seca." Ironicamente, o espaço
recifense a que se refere se chama Pagode da Mídia. Por outro
lado, ele foi uma das estrelas da segunda edição do
novo programa global de Regina Casé, Central da Periferia,
gravado ao vivo em Heliópolis, na periferia paulistana. "Aquelas
pessoas ali são 100% das que compram pirata, têm emprego
informal, integram um mercado paralelo, que não faz parte
de lugar nenhum", avalia. No entanto, passou na tela mais que
central da Globo. Falando sobre outro assunto (o PCC e a violência
em São Paulo), Lehart condensa sem querer contradições
como essas e aquelas que fazem a indústria fonográfica
baixar os preços de seus antes intocáveis produtos:
"O céu e o inferno muito em breve vão ser muito
mais próximos do que a gente imagina".
|
|