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Folha de S. Paulo – SP, 06/04/2006,
Ilustrada, E-1
O disco quebrou
Luiz Fernando Vianna
Thiago Ney
O mercado fonográfico mundial encolheu 30% nos últimos
cinco anos, foi chacoalhado pela facilidade digital de copiar discos
e viu caducarem seus métodos habituais de fabricar sucessos.
Para enfrentar a tormenta, as gravadoras brasileiras têm adotado
fórmulas novas, como a taxação em 10% das bilheterias
dos shows de seus artistas. A cobrança do dízimo ainda
engatinha, mas já consta da maioria dos contratos de artistas
novos da Sony BMG e da Universal, as duas maiores do mercado. Os
experientes estão livres da mordida. "Se estou investindo
nos artistas, nada mais justo do que ter uma parte. Mas jamais foi
cobrado", diz Alexandre Schiavo, gerente geral da Sony BMG.
Mas já se ameaçou cobrar, segundo Marcelo Pitta, empresário
de Emmerson Nogueira, um dos artistas da gravadora que têm
a cláusula da taxação no contrato. "Ameaçaram
porque estávamos meio brigados. Eu disse: "Vão
ter que botar um fiscal lá, porque eu não vou trazer
dinheiro para vocês'", diz Pitta, que passou a empresariar
Nogueira depois de ele assinar, em 2001, o contrato. "O primeiro
contrato nunca é bom para o artista, só para a gravadora.
Foi o diretor jurídico de uma delas que me disse isso."
Em caso de cobrança, Pitta diz que recorreria à Justiça.
"É cláusula abusiva. Por que [as gravadoras]
têm direito de ganhar em show se não investem em show?"
Na Universal, todos os artistas jovens contratados a partir do final
de 2004 estão aceitando cláusulas que dão à
gravadora o direito de recolher parte do que eles ganham em shows
e/ou em publicidade. Estão na lista, entre outros, Isabella
Taviani, Negra Li, Jeito Moleque, Juliana Diniz e Marjorie Estiano.
"Temos argumentado que é uma necessidade para a sobrevivência
do negócio. Ambos estamos investindo. Nos anos dourados da
indústria, não era necessário. O que se ganhava
vendendo discos era mais do que suficiente", afirma José
Antonio Eboli, presidente da Universal. "E, quando eles só
ganhavam dinheiro, os artistas participavam dos lucros? É
maluquice total. Um artista, para encarar isso, não tem cara",
diz Fagner, que nos tais anos dourados, os 90, assinou contratos
milionários com Sony e BMG e hoje, como muitos outros artistas
experientes, prefere gravar por conta própria e só
depois negociar com as empresas. A Warner não respondeu se
prevê a cláusula nos seus contratos. A EMI, embora
tenha sido a primeira a adotá-la no mundo (com Robbie Williams,
em 2003), garante que não o faz no Brasil. "Seria legal
se isso pudesse ocorrer. Porque precisamos de parceiros para viabilizar
os produtos. Não que eu tenha interesse em ganhar no show,
mas, se ajudasse a bancar uma parte do disco, seria importante",
diz Marcos Maynard, presidente da EMI. "Os custos da indústria
aumentaram bastante. Assim, os shows e a venda de merchandising
tornaram-se novos meios de recuperar dinheiro investido nos artistas.
As gravadoras estão dizendo: "Se nós fazemos
isso acontecer, também queremos uma parte'", pontua
o inglês John Kennedy, presidente da Federação
Internacional da Indústria Fonográfica. Das maiores
independentes, Biscoito Fino e Deck Disc negam a prática,
mas a segunda reconhece que pensa em experimentá-la ao investir
na carreira de Fábio Souza, vencedor do "Fama",
da TV Globo. A ST2 afirma que, "por enquanto", não
ganha em cima do faturamento de shows de seus contratados. "Mas
temos um projeto de montar uma divisão para dar apoio aos
nossos artistas, até mesmo sendo os empresários deles",
disse Marcelo Affonso, gerente de marketing da gravadora. "Quase
a metade da nossa receita não vem da venda de discos",
diz João Marcello Bôscoli, da Trama. "Vem de patrocínios,
de shows, do licenciamento de canções. Colocamos quatro
músicas nossas no [game] Fifa Soccer."
Digital e modismos
A taxação dos shows é conseqüência
de uma crise que deixou as gravadoras tateando às escuras
em busca de uma saída. Os executivos estão convictos
de que há um processo de substituição gradativa
dos produtos físicos (CDs e DVDs) pelos digitais, mas ainda
não sabem como suas empresas podem manter seus lucros nesse
cenário em transformação. "Temos que continuar
investindo no artista novo. Infelizmente, o mercado brasileiro usou
e abusou das compilações, dos discos ao vivo, e você
acaba viciando o consumidor a comprar produtos de grandes sucessos.
Depois vem a síndrome pós-"Acústico MTV".
O artista demora muito a se recuperar", avalia Eboli, da Universal.
Esse modelo, que contribuiu para o boom dos DVDs em 2004 (aumento
de 101% em relação a 2003), está se esgotando,
e não ajuda as gravadoras no mundo digital: como os "Ao
Vivo" têm poucas canções inéditas,
não geram catálogo novo para oferecer em download.
Modismos como foram o axé e o pagode nos anos 90 não
vêm se repetindo e também não engordam o catálogo.
"Não há um gênero dominante. O que mais
tem dado resultado é a MPB de qualidade, com Vanessa da Mata,
Marisa Monte, Maria Rita, Ana Carolina. Isso é ótimo,
porque mostra a demanda por boa música. Mas dá muito
trabalho", diz Schiavo, da Sony BMG, referindo-se ao fato de
que produzir um disco de uma dessas cantoras é muito mais
caro do que fabricar um grupo descartável. O discurso antipirataria
continua, mas sem a cólera de outros tempos. Afinal, já
se sabe que a hegemonia do meio digital é um horizonte inevitável
e que se pode ganhar dinheiro na internet. O quadro atual é
o avesso sombrio da década passada, quando as gravadoras
promoviam festas nababescas, fretavam aviões para levar convidados
a shows e davam com freqüência adiantamentos a artistas
entre US$ 1 milhão e US$ 2 milhões. Graças,
principalmente, à equiparação do real ao dólar
a partir de 94, as vendas aumentaram em 225% entre 92 e 97. "[As
gravadoras] abusaram. Hoje os artistas e empresários estão
cientes da situação e têm sido parceiros",
diz Eboli. A taxação dos shows é uma das "parcerias".
Para empresário, o artista é uma marca a ser explorada
A intenção das gravadoras em abocanhar parte do faturamento
vindo de shows divide opiniões entre os empresários.
Muitos deles gerenciam a carreira de seus artistas com a mesma lógica
que uma companhia utiliza para cuidar de um novo produto. A banda
Detonautas, por exemplo, que acaba de lançar o terceiro álbum,
faz divulgação particular de seus trabalhos. "Em
2001, quando contratei o grupo, a Warner estava em crise. Então
montamos uma equipe de divulgação em oito Estados
do Brasil", afirma Juca Muller, empresário da banda.
"O Detonautas, hoje, é uma marca que se associou à
Coca-Cola e ao Carrefour. É uma marca de sucesso, que dá
ibope." Para Muller, o mercado brasileiro ainda sofre com a
falta desse tipo de visão. "Banda é marca. O
empresário brasileiro tem de estudar mais, se profissionalizar.
O artista é uma marca, e o empresário é um
instrumento para levar essa marca ao seu público-alvo."
É com esse pensamento que o Detonautas montaram uma estrutura
de merchandising em que vendem de camisetas a pranchas de surfe,
passando por mochilas. Marcelo D2 segue pelo mesmo caminho. "Existe
um negócio chamado Marcelo D2. Vendemos camisas, bonés,
tênis, o D2 montou uma grife de roupas com seu nome",
explica Marcelo Lobatto, que cuida da carreira do rapper. Mentor
dos Mamonas Assassinas e do projeto virtual Dogão, entre
outros, o empresário e produtor Rick Bonadio vai contra.
"Artista é artista. Não significa que não
seja um produto que gera dinheiro, mas, se for encarado primeiro
como produto, não vai funcionar." Proprietário
do selo Arsenal (do CPM 22), Bonadio é também empresário
de shows. "Hoje não dá para ser apenas gravadora.
O caminho é investir em novos artistas e participar dos shows.
O problema é que as grandes gravadoras têm dificuldade
em se relacionar com mercados diferentes. Não basta apenas
incluir uma cláusula nos contratos." Manoel Poladian,
há 48 anos no mercado, empresário de Rita Lee, Simone,
Zizi Possi, abre fogo contra a iniciativa dos executivos fonográficos.
"Disco é disco, show é show. São negócios
especializados. Eles [as gravadoras] não têm experiência
nisso. Uma gravadora não conseguirá agenciar Daniel,
Lulu Santos e Calypso, por exemplo. São mercados diferentes",
diz. "Sou advogado, não deixo meus artistas assinarem
contratos que tenham essa cláusula." Para Lobatto, a
idéia das gravadoras pode funcionar em eventos especiais.
"Não acredito que elas entrem nos shows de turnê,
de estrada. Já existem agências especializadas em todos
os Estados do país, não sei em que as gravadoras serão
úteis. Além disso, o cenário do show da Pitty
custa R$ 160 mil. Elas vão investir nisso? Mas as gravadoras
podem entrar nos shows especiais, corporativos, como aqueles de
final de ano." "Antigamente", continua ele, "a
arte valia 80% e o mercado, 20% [referentes às partes que
cabiam aos artistas e aos empresários nos shows]. Hoje, isso
está quase em 50% a 50%. Porque aumentaram muito os custos
de produção, de marketing. Se as gravadoras quiserem
uma fatia do bolo, isso será retirado da parte do artista,
porque não há como diminuir isso do que recebe o empresário."
"Temos concorrência multinacional", reagiu Leninha
Brandão (Vanessa da Mata, Lenine...) ao ser questionada pela
reportagem da Folha. Para ela, as gravadoras "vão aprender
a trabalhar com shows. São os novos tempos. A concorrência
é bem-vinda". "É uma tendência do
mercado", diz Lobatto. "Não temo isso, acho até
que pode dar certo. A fatia de cada um vai diminuir, mas o bolo
pode aumentar."
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