MERCADO

 







 

Folha de S. Paulo – SP, 02/11/2005, Informática, F-4

Gravadoras lançam troca legal de arquivos
Mariana Barros

Na mesma semana em que a troca de arquivos pela internet custou a liberdade de um usuário, foi apontado um norte para as redes dispostas a legalizar seu funcionamento: a rede peer-to-peer (P2P) iMesh (www.imesh.com) passou a operar mediante cobrança de assinatura. Por US$ 6,99 mensais, o usuário passa a ter acesso a todo o conteúdo que trafega por ela. O serviço, como outros do gênero, só pode ser acessado do computador em que o software estiver instalado. Mas ao contrário do que é oferecido pelas lojas on-line Yahoo! Music e Napster, não se pode transferir as músicas para um tocador de MP3, recurso que deve ser incluso numa futura atualização. Até lá, as músicas ficarão presas no PC do usuário -o que é extremamente desvantajoso, pois, mesmo pagando, o assinante não garante autonomia sobre o uso das canções. A iMesh continuará buscando arquivos em outras redes P2P, como a Gnutella, mas não será mais possível baixá-los, pois um filtro impedirá o download de conteúdo identificado como "ilegítimo". Arquivos de domínio público ou licenciados para serem distribuídos gratuitamente poderão ser baixados normalmente. Já vídeos passíveis de download ficarão restritos aos que têm menos de 15 minutos ou tamanho inferior a 50 Mbytes, critério que limita bastante as opções.

Interatividade
Mecanismos sociais permitirão a interação dos usuários, que também poderão compartilhar suas bibliotecas de música e trocar mensagens com um comunicador, que deverá ser incorporado em breve. As gravadoras parecem ter aprovado o novo serviço, que foi elogiado pelo diretor da Associação da Indústria Fonográfica Americana, RIAA, Mitch Bainwol. Assim como a loja iTunes, a rede iMesh dispensa as gravadoras da operação e do custo de distribuição de suas músicas.

Cadeia
Quatro anos poderá ser o tempo que o chinês de Hong Kong Chan Nai-Ming ficará atrás das grades. Usuário da rede de P2P BitTorrent, cuja tecnologia faz a redistribuição simultânea dos arquivos em download (você repassa partes do arquivo ao mesmo tempo em que o baixa), Nai-Ming foi preso em janeiro sob a acusação de compartilhar três filmes e condenado na semana passada, após quatro dias de julgamento. Sua sentença deverá ser anunciada no dia 7. Para aguardar em liberdade, Nai-Ming arcou com o pagamento de 5.000 dólares locais (cerca de US$ 640). O governo de Hong Kong afirmou que a condenação é um passo importante para combater com o uso ilícito desse tipo de rede e que o compartilhamento ilegal de arquivos caiu 80% desde a prisão de Nai-Ming.

Truste
Na briga pelo mercado de música digital, a Microsoft teve de se explicar para a juíza norte-americana Colleen Kollar-Kotelly. A empresa estaria negociando com fabricantes de tocadores portáteis a produção de aparelhos que funcionassem exclusivamente com seu software musical -demanda que violaria leis comerciais antitruste. Com a iniciativa, a Microsoft trilharia o mesmo caminho da Apple, cujo aparelho iPod dispõe de software e de loja para abastecimento específicos, ambos chamados iTunes. A diferença é que, diferentemente da Apple, a Microsoft não fabrica tocador.

Softs ganham versões anônimas e para celular

Enquanto a Justiça aperta o cerco contra usuários dos programas P2P (de troca de arquivos), os fãs do software BitTorrent colocaram na internet um projeto que promete acirrar a discussão sobre pirataria e direitos dos internautas: é a troca de arquivos anônima. Com um sistema desse tipo, em tese os internautas poderiam trocar qualquer tipo de arquivo, e com quem desejassem -a indústria fonográfica e os estúdios de Hollywood não conseguiriam descobrir nem perseguir os usuários do BitTorrent. É uma promessa e tanto, mas o sistema não é fácil de configurar. A opção teoricamente mais simples, instalar o programa Azureus (clone incrementado do BitTorrent) e configurá-lo para navegar pela rede anônima Tor, requer a leitura de um manual composto por dez páginas (azureus.sourceforge.net/doc/ AnonBT/Tor/howto_0.5.htm). Outro sistema de rede anônima, o I2P (www.i2p.net), é ainda mais complicado .

P2P no celular
O confronto entre os usuários de programas de troca de arquivos e a Justiça promete ficar ainda mais intenso com o lançamento de uma novidade tecnológica: o P2P portátil. O programa Symella (symella.aut.bme.hu), por exemplo, roda em telefones celulares com sistema operacional Symbian e permite trocar arquivos por meio da rede P2P Gnutella. O software é uma proeza tecnológica, mas, como a transmissão de dados via celular geralmente é lenta e cara, não é viável de usar. Já o WinMobile Torrent (www.adisasta.com/wmTorrent.html) é bem mais realista, pois roda em micros de mão com o sistema operacional Windows Mobile 2003. Na prática, isso significa que ele pode ser usado com conexão Wi-Fi, que geralmente é gratuita ou custa pouco. O programa custa US$ 20, mas tem uma versão de testes gratuita.

"2 Filhos de Francisco" é vítima de redes piratas
Álvaro Fagundes

Maior bilheteria do cinema brasileiro nos últimos anos, "2 Filhos de Francisco" conseguiu um feito de que seus produtores não faziam questão: chegar à internet enquanto ainda está nas salas de cinema. Desde o final de setembro, o filme, que estreou em agosto, está disponível nas redes P2P, que permitem a troca de arquivos entre usuários. Na distribuidora Columbia Pictures, o filme é considerado o maior caso de pirataria do país -cópias também já são encontradas em camelôs. A estimativa da empresa é que foram vendidos 400 mil DVDs piratas e que o prejuízo supere os R$ 10 milhões, sem contar as perdas de bilheteria. "Em 17 anos, eu nunca vi nenhuma pirataria nessa proporção", afirma Wilson Cabral, diretor da distribuidora. A gravação de filmes é bastante comum com produções estrangeiras, mas é a quarta vez que isso acontece com um longa-metragem nacional. Antes de "2 Filhos de Francisco", apenas "Cidade de Deus", em 2002, "Cazuza" e "A Dona da História", ambos em 2004, chegaram à internet antes do lançamento em DVD. Tirando a película do cineasta Fernando Meirelles, que foi gravada com uma filmadora no cinema, as demais cópias foram conseguidas em produtoras, laboratórios ou empresas patrocinadoras. No caso do filme que conta a história da dupla Zezé Di Camargo e Luciano, as únicas diferenças em relação ao produto que está nos cinemas são os créditos iniciais, que estão invertidos, e o nome da cidade natal da dupla (Pirenópolis), que está grafado incorretamente como "Perinópolis". Segundo o administrador de um site que hospeda atalhos para arquivos compartilhados via internet, as produções nacionais raramente aparecem na rede porque a pirataria fica restrita a "vazamentos" de DVDs distribuídos para divulgação ou para os patrocinadores do filme. "Aqui no Brasil, a comunidade P2P não tem o hábito de fazer filmagens nos cinemas, o que é muito comum na Ásia." Ele também conta que "2 Filhos de Francisco" foi provavelmente obtido por alguém que estava dentro da produtora. A Columbia diz que investigações internas estão sendo feitas, tanto na produtora quanto no estúdio onde a película foi finalizada, para descobrir o responsável pelo vazamento. O principal temor da companhia, que pretende enviar nesta semana uma carta ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, é que seja o início da pirataria profissional de filmes no Brasil. A distribuidora também afirma que está redobrando os cuidados para o lançamento do DVD, que deverá chegar às lojas em 7 de dezembro, para que o caso não se repita. A empresa, que estimava vender 1 milhão de cópias, viu sua previsão diminuir para 400 mil depois da pirataria.