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O Globo – RJ, 14/09/2005, Segundo Caderno
Em busca do novo formato
Tom Leão
Num momento em que a indústria fonográfica mundial está buscando novos formatos e tentando sair da crise, popularizar a troca de música legalizada na internet, via arquivos de compressão como MP3, é uma das opções mais visí veis. Mas não a única. Os sites de downloads de música pela internet já são uma realidade por aqui. Mas outras opções vão surgindo. Na busca de novos formatos, a gravadora Trama, por exemplo, acaba de lançar um CD com cem músicas de seu catálogo no formato MP3. Ou seja, num único CD, você pode ter o equivalente a cerca de dez discos. Não é uma idéia inédita no Brasil. Já foi lançado um CD do selo gospel MK Publicitá nesse formato. E em feiras do Nordeste já se comercializam CDs com músicas gravadas em MP3, feitos por artistas populares que não têm gravadora. Mas a iniciativa da Trama parece estar dando certo, porque a primeira tiragem do volume 1 de seu CD MP3 compilação (que custa R$ 50) já está se esgotando. — Nós prensamos dois mil CDs e a tiragem já está acabando. Vamos fazer mais — diz João Marcello Bôscoli, presidente da Trama. Ele diz que o CD MP3 é apenas um dos formatos no qual a Trama quer apostar para o futuro. — Nós trabalhamos com vários formatos: O CD normal, o CD-single, o CD MP3, CD num envelope de papelão, músicas para download na internet. Não sou chegado no Dual Disc, a gente não vai entrar nessa. Mas estamos em curso de liberar alguns títulos para o Super Audio CD (SACD) que é o concorrente do DVD Audio. A idéia do CD MP3 não agradou a alguns colegas do mesmo métier . Como Felippe Llerena, dono da Nikita Records e sócio-diretor do site de downloads iMusica. — Acho um absurdo que uma empresa que trabalhe com áudio venha entregar música para seu consumidor em MP3, que é o pior tipo de compressão possível — diz Felippe Llerena. — Não acho a iniciativa nada demais e não acho que isto vá incentivar as pessoas a comprarem mais música. No entanto, Llerena vende músicas compactadas pela rede. Onde está a diferença, então? — Eu uso WMA, um formato compactado que é bem superior ao MP3, e o meu negócio de venda é pela internet. Para baixar, tem que ser compactada... — A Trama não vê o MP3 como uma coisa ruim. Nunca viu. O MP3 é um formato que já está estabelecido na cabeça das pessoas, não é um formato obscuro, todo mundo conhece — diz Bôscoli. E quanto ao som? Por comprimir muito o áudio original para caber no pequeno espaço, certos detalhes são perdidos no MP3. — Eu não amo o som do MP3, mas é uma mídia que até minha avó já ouviu falar. Sou contra a ditadura do formato. Estamos na era do multiformato. Pensamos até em lançar no futuro chaves USB MP3. — rebate Bôscoli. Nesse ponto, Llerena concorda com Bôscoli, mas em parte. — Pode ser que haja uma sinergia interessante com os MP3 players — portanto que vendam suas músicas diretamente em MP3 players ou em pen drives . Mas ainda acho mais fácil ir em sites de MP3 e comprar as músicas. Llerena comprova o que diz com números do seu iMusica: — Temos tido cada vez mais visitas no site. Estamos vendendo, em média, 20 mil downloads por mês e temos 120 mil músicas para venda. E até o fim do ano esperamos chegar em 300 mil — exulta. Atualmente, os downloads no site da Trama custam até R$ 2,99. No iMusica saem por entre R$ 0,99 e R$ 1,99, mas Felippe avisa que vai acontecer um reajuste que deixará os preços entre R$ 1,99 e R$ 2,99. — Vamos mudar os preços porque 99 centavos é difícil para fazer dinheiro. O ideal seria ter um preço único, mas não dá, por causa dos contratos de direitos. O CD da Trama traz os mais diversos artistas do cast nacional da gravadora, num balaio de gatos que mistura o DJ de house Anderson Soares, os sertanejos Caju & Castanha e o rapper Rappin’ Hood. Não pode confundir o ouvinte? — A lista está em ordem alfabética. Então é fácil identificar e pular a faixa ( CDs de MP3 trazem gravados o nome da música e dos artistas na ID Tag ). Nossa idéia foi evitar o lance do hype , não ter só artistas de um estilo. Queria ter todo mundo na lista — diz Bôscoli. E, como para a maioria das pessoas não é fácil fazer uma compilação, achar as músicas na internet, selecionar e depois queimar o CD, a opção da Trama facilita o processo. Agora cabe ao público saber por qual padrão vai optar e se vai comprar as novas idéias que surgem. Uma coisa é certa: o futuro da música ainda é incerto.
O cada vez mais acessível MP3
Ainda que para muitos o termo “MP3” remeta logo ao i-Pod e similares, aqueles aparelhinhos caros que têm mini-HDs de até 60 giga, estes são apenas players. O MP3 na verdade é um tipo de compressão de arquivos de áudio muito usado para se trocar música pela internet (deixa um arquivo de áudio com um décimo do tamanho). Não é o único, mas é o mais usado/conhecido. Existem, por exemplo, o WMA (Windows/Microsoft) e o Atrac (da Sony), além de outros como Flac e Ogg Vorbis. Essa compressão permite que se grave num único CD de 80 MB, o equivalente a dez ou 12 discos comuns (no Atrac, o dobro disso!). O detalhe é que esse tipo de disco não pode ser ouvido em qualquer toca-CD (o Atrac só é lido em aparelhos Sony). É preciso ter um player que leia os arquivos. No caso dos discos em MP3, é mais fácil. Eles podem ser tocados no computador ou em algum DVD player que aceite discos neste formato (a maioria hoje em dia aceita). E cada vez mais o MP3 se torna uma opção nos aparelhos de som caseiros, e também nos rádios de carro. Logo, não será problema algum ouvir os CDs de MP3 em diferentes aparelhos. E o MP4 (que comprime ainda mais e com melhor qualidade, prometem) já existe e logo estará no mercado. ( T.L. )
Glossário
MP3: O nome MP3 é uma abreviação da sigla MPEG Audio Layer-3, criada pelo grupo que padroniza a compressão de arquivos digitais, o MPEG (Moving Picture Experts Group). Foi este grupo que desenvolveu os sistemas de compressão dos filmes de DVD, por exemplo, para fazer caber as informações de vídeo em espaços pequenos.
WMA: O padrão da Microsoft usado no Windows. Significa Windows Media Audio.
DUAL DISC: Um disco híbrido, misto de CD de áudio com DVD, que traz música de um lado e vídeo/fotos/dados do outro. Já existem lançamentos neste formato nos Estados Unidos, mas o problema é que nem todos os players o aceitam.
SACD: Sigla para Super Audio CD. É um CD de áudio que promete mais fidelidade de som. Toca em aparelhos de CDs e DVDs, e cada vez mais marcas adotam o padrão.
DVD AUDIO: É o concorrente direto do SACD. Apesar do nome DVD (Digital Versatile Disc), não traz vídeo.
USB: Sigla para Universal Serial Bus, uma porta presente na maioria dos computadores que permite que se liguem aparelhos externos, como câmeras digitais, multifuncionais, tocadores de MP3 etc.
PEN DRIVE: chaveiros USB, também conhecidos como memory keys . Acessórios que permitem o transporte de dados de um lugar para outro, bastando conectar na USB. Substituem os disquetes.
ID TAG: Etiqueta de identificação que traz os dados gravados nos CDs.
ATRAC: Sistema de compressão de áudio desenvolvido pela Sony e usado em toca-MDs, CDs e MP3 players da marca. Comporta/comprime ainda mais dados do que o já reduzido MP3.
FLAC, OGG VORBIS, MPC: Outros tipos de padrões de compressão de áudio na rede.
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