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Revista Carta Capital – SP, 22/06/2005, Plural, 68 e 69
Sobrevivendo no caos
PEDRO ALEXANDRE SANCHES
Nos anos 90, Marcelo Yuka lide-rou O Rappa, uma das novas bandas brasileiras que mais souberam conciliar prestígio e rentabilidade. Em 2001, ele fi-cou paraplégico após ser baleado numa tentativa de assalto no Rio; o episódio o desestruturou, precipitou sua saída do grupo, tornou incerto o prosseguimento artístico do mais hábil e militante letrista da geração 90. Em termos simbólicos, algo pare-cido acontecia com a própria indús-tria fonográfica, que na virada do sé-culo vivia uma colossal (e ainda não superada) crise, a bordo de pirata-ria, avanço da internet, inabilidade administrativa, mudança global de modelos tecnológicos e políticos. Mesmo à beira de ser sugado pe-las crises, Yuka formou uma nova banda, o F.Ur.T0. (ou Frente Urba-na de Trabalhos Organizados), co-meçou a trabalhar de modo inde-pendente num possível futuro disco e, algum tempo depois, foi chama-do pelo executivo Alexandre Schia-vo à diretoria da Sony Music, para discutir um possível novo contrato. Yuka relembra a cena, usando o verbo no presente: "Chego lá e fa-lo que não vamos fazer a maioria dos programas de tevê, que o dis-co não tem a priori apelação radio-fônica, que o texto é meio atípico para o rádio, que a banda nem es-tá pronta, que precisamos de um estu-dio... Era como dizer `não me contrata'. Mas o cara quis assim mesmo". Schiavo, hoje presidente da Sony & BMG (resultante da fusão com a BMG, também em contexto de retração e cri-se da indústria), confirma os termos usados por Yuka: "Ele realmente falou isso tudo, mas aceitei o risco de fazer um trabalho diferente e paciente. Afinal, temos que ousar, experimentar no-vos canais e alternativas". Pois o disco do F.U.R.T.O., Sangue au-diência, sai agora ostentando um afiado e fortíssimo discurso musical e ideológico, como demonstra a crítica direta à alta so-ciedade acuada de Ego City ou a reprodu-ção de trechos de discurso de João Pedro Stedile, líder do Movimento dos Sem-Terra, que encerra o CD. Mais até que a vontade de potência e a sobrevivência artística de Yuka, o con-teúdo impactante de Sangue audiência Simboliza com justeza dramática um sis-tema fonográfico que está todo em xeque - e que tenta se mover dentro da crise, como atesta o ensaio de discurso ousado do presidente da multinacional e como pressionam as idéias de Yuka, mais in-dignadas (ou "panfletárias", de acordo com certos narizes torcidos) que nunca. "É mais fácil me tachar de panfletário. Talvez esse posicionamento incomode até mesmo quem produz arte. Um artista é um ativista cultural, é um cidadão amplificado, ampliado. Por que não fazer? Quando falamos do MST, estamos deixando de fa-zer um nicho de shows que talvez seja o que hoje mais banque os músicos do Bra-sil, que é o das feiras agropecuárias"; Yuka equaciona escolhas ideológicas e riscos. O grau de autonomia de que ele desfru-ta na gravadora é, no entanto, fruto de um processo que passa pela crise musical. Seu grupo investiu dinheiro próprio na cons-trução de um estúdio e na produção, a princípio independente, do CD. Parecem se distanciar os tempos de contratos cheios de regalias entre gravadoras poderosas e artistas lu-crativos, e Yuka descreve a travessia: "É um momento de passagem. Mu-dança dá medo no princípio, mas ela vai se alojando. E é favorável, muito democrática, a mudança que o mer-cado cultural está sofrendo': 0 que ele relata remete a um con-texto maior de transformações na indústria musical local - e que é vi-vido de forma especialmente inten-sa por sua geração, que despontou nos anos 90, num mercado ainda aparentemente pujante, e recebeu de frente a atual crise de modelos. Caso curioso é o da inventiva ban-da Pato Fu, que também chega à praça com novo disco, Toda Cura para Todo Mal, afiliado à mesma gra-vadora do F.U.R.TO. Em 2001, o Pato Fu se despedira da gravadora em que se firmou (BMG), e amargou um contrato abortado com a EMI, que então recebia em sua presidên-cia Marcos Maynard, executivo notório por intervir no trabalho dos artistas que controla com idéias próprias - e, às vezes, alienígenas às obras dos artistas. Após idas e vindas, o grupo acabou op-tando pela produção independente do que viria a ser o divertido Toda Cura para Todo Mal. Fundaram um selo próprio (Ro-tomusic) e acabaram negociando um con-trato de licenciamento, distribuição e di-vulgação pela Sony & BMG. Comemorando a liberdade artística que o novo modelo propicia, o líder John Ulhoa também expõe os percalços dos novos tempos: "Ficamos três anos bem fora das rá-dios e tevês, temos tido menos shows. Temos menos dinheiro, é evi-dente, mas ganhamos o suficiente, e temos o privilégio de ter construído uma estrutura': A cantora de frente do grupo, Fernanda Ta-kai, descreve o per-curso e o que ajudou a permitir a sobrevivên-cia do Pato Fu: "Se não tivéssemos cons-truído nossos aparatos próprios ao lon-go dos anos, a gente hoje estaria meio perdido. Sabíamos que tínhamos que ter editora, montar estúdio e tal, só não sabíamos que estava tão próximo": Caso parecido é o de Zélia Duncan, que mantém contrato com a Universal (pelo qual lançará em julho Pré-Pós-Tudo), mas fundou um selo para veicular trabalhos que não se ajustassem aos propósitos co-merciais da gravadora como o corajoso Eu Me Transformo em Outras (2004), que vendeu cerca de 30 mil cópias. "Na ocasião, queriam que eu fizesse um CD ao vivo, e eu queria fazer o pro-jeto do meu coração. Propus fazer à parte, não queria um embate para im-por meu contrato. Toparam. A obses-são de abrir novas frentes tem me dado frutos, já não me assusta tanto a idéia de ficar sem gravadora", diz Zélia. Mesmo quem permane-ce exclusivamente sob as asas da indústria atesta a necessidade de reinvenção em anos recentes. Nesse caso se encontra o grupo Skank, que se mantém na mesma Sony desde 1994, já atingiu vendagens superio-res a 1 milhão de cópias e hoje comemora os 120 mil exemplares consumidos da coletânea Radiola. Diz o líder Samuel Rosa: `A gente continua interes sante para a gravadora, que nos dá o básico para gravar, lançar, divulgar. Gozamos de certo conforto, de autonomia. Talvez ter dito certos `nãos' tenha nos salvado, ga-rantido certa sobrevivência ao Skank': Diante de uma proposta de rever sua própria (e jovem) obra num Acústico MTV ("nas internas, a gente chama esses projetos de ponte de safem", afirma Sa-muel), a banda peitou o "não" - e iniciou um processo de reinvenção com os consistentes Ma-quinarama e Cosmotron (esse, com cerca de 200 mil cópias vendidas, foi um dos melhores resul-tados comerciais da Sony em 2003). A transformação tem sido regra para a geração 90, com variações de caso para ca-so. A Nação Zumbi, por exemplo, se ani-nhou numa independente de porte, a Tra- ma, como conta o músico Lúcio Maia: `A Sony tinha, não sei se ainda tem, um pen-samento majestoso, com muito dinheiro para coisas que não eram tão importan-tes, como quartos de ho-tel. Rolavam alguns ca-brestos, imposições. A Trama nasceu na antíte-se desse raciocínio, tem outro conceito ': E há quem tenha partido para a independência to-tal, como Chico César, que se renova com um projeto totalmente des-vinculado de gravadoras. Pelo selo próprio Chita, ele lançou Com-pacto Simples, com apenas duas músicas e preço reduzido. A autonomia rendeu o dis-curso ácido, irônico e sem meias palavras de Odeio Rodeio, composta em duo com Rita Lee: Odeio rodeio/ e sin-to um certo nojo/ quando um sertanejo/ começa a tocar/ eu sei que é preconceito/ mas ninguém é perfeito/ me dei-xem desabafar. Cada um a seu modo, todos parecem dar certa razão ao discurso "panfle-tário" de Marcelo Yuka, que assim encerra a ques-tão: "Estamos requerendo nossos direitos, com um poder crítico que não tí-nhamos. Tenho 39 anos, não nasci com liberdade de expressão. Isso é feliz, é algo para comemorar.
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