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Revista Exame – SP, 27/04/2005, Brasil, 38
Se o imposto cai, a pirataria diminui
Gustavo Paul
O governo federal acaba de lançar um conjunto de 99 medidas para combater a pirataria, reconhecidamente uma das piores pragas da economia brasileira. Para desespero das empresas que sofrem diariamente com a ação de falsificadores, nenhuma delas ataca a verdadeira causa do problema a fantástica carga de impostos que recai sobre as empresas legais. Os especialistas são unânimes em afirmar que tributos em excesso representam um enorme estímulo à pirataria. O governo, porém, parece não ter se rendido às evidências. Com muita boa vontade, é possível enxergar no conjunto de quase 100 propostas apenas duas que resvalam levemente no assunto. A de número 54 fala em "incentivar estudos visando reduzir o preço de produtos alvos da pirataria". A de número 99 sugere "estudar alternativas para reduzir o diferencial de custos entre produtos legais e ilegais. Para um país cujo setor informal já representa 40% da economia, são propostas um tanto tímidas, para dizer o mínimo. Talvez o governo devesse buscar inspiração em exemplos bem sucedidos de outros países. O Canadá chegou a ter 90% do consumo local de cigarros abastecido por empresas ilegais. O governo canadense decidiu promover uma forte redução na taxação a alïquota caiu de 90% para 60% , e hoje apenas 10% do mercado está nas mãos dos piratas. Coréia do Sul e Filipinas seguiram o mesmo caminho em outro setor que sofre muito com a pirataria, o de informática. Ambos reduziram a carga de tributos sobre a venda de software e hardware de computadores novos e também viram as cópias ilegais perder espaço. A lição de países como Canadá e Coréia é simples. Tão importante quanto combater a oferta de produtos piratas é mirar o outro lado da equação o da demanda. A clássica lei de mercado ensina que, enquanto houver pessoas dispostas a adquirir produtos mais baratos, sempre haverá quem queira produzi‑los. Não faz sentido prender os consumidores. Por isso, é vital desestimular a compra pela via do preço. Atacar a ponta da demanda é algo complexo", diz o secretário executivo do Ministério da Justiça, Luiz Paulo Barreto. "Vamos começar quase do zero:' A favor do governo conta o fato de que, pela primeira vez, o tema esteja sendo levado a sério. A Receita Federal criou, em março, um setor específico para lidar com a pirataria. O mesmo estão fazendo as polícias Federal e Rodoviária. "Caiu a ficha", diz Emerson Kapaz, presidente do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (Etco). A pirataria não é mais vista como um mero problema social, e sim como uma questão que envolve o crime organizado internacional: É ótimo saber que o governo pretende aumentar a repressão mas melhor seria se, paralelamente, fizesse um esforço para diminuir a tributação.
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